Ao estudar João 5:39-47, ouça o chamado de Jesus: conhecer as Escrituras deve conduzir nosso coração ao Salvador que vive.
Introdução
É possível conhecer muitas passagens bíblicas e ainda resistir à voz daquele que fala por meio delas. Essa realidade solene aparece em João 5:39-47, quando Jesus confronta pessoas familiarizadas com as Escrituras, mas indispostas a recebê-lo. O problema não estava na Palavra de Deus, nem no cuidado de examiná-la, mas em um coração que buscava conhecimento sem se render à verdade. Este estudo nos convida a compreender a advertência de Cristo e a cultivar uma leitura bíblica reverente, atenta e transformadora. Não precisamos escolher entre estudar profundamente e amar o Salvador. Precisamos aprender a estudar de modo que nosso entendimento seja iluminado, nosso orgulho seja confrontado e nossa confiança descanse naquele que concede vida eterna.
O contexto revela a seriedade das palavras de Jesus

João 5 começa com a cura de um homem que estava enfermo havia trinta e oito anos. A cura aconteceu no sábado e provocou oposição de certas autoridades religiosas. Quando Jesus declarou sua relação singular com o Pai, a hostilidade aumentou, pois compreenderam que ele estava afirmando sua igualdade com Deus (João 5:1-18).
Nos versículos seguintes, Jesus explica que suas obras estão em perfeita harmonia com o Pai. Ele não se apresenta como um mestre independente, mas como o Filho que dá vida e exerce o juízo que lhe foi confiado. Por isso, honrar o Pai exige honrar também o Filho (João 5:19-23).
A discussão avança para os testemunhos que confirmam sua identidade: João Batista, as obras realizadas por Jesus, o próprio Pai e as Escrituras (João 5:31-39). Assim, João 5:39-47 não é uma observação isolada sobre hábitos de leitura. É uma confrontação acerca da resposta humana à revelação de Deus em seu Filho.
Devemos ler essa passagem sem desprezar o povo judeu ou imaginar que sua advertência se aplica apenas àqueles interlocutores. Jesus e seus primeiros discípulos eram judeus. A denúncia é dirigida à incredulidade de pessoas concretas e também examina nosso coração: podemos defender a autoridade da Bíblia com os lábios e resistir à sua mensagem com a vida.
As Escrituras testemunham do Salvador
Em João 5:39, Jesus declara que as Escrituras testemunham a seu respeito. Seus ouvintes reconheciam nelas a promessa de vida eterna, mas não acolhiam aquele em quem essa promessa encontrava cumprimento. A tragédia não era estudar demais, mas interpretar a revelação de Deus recusando seu testemunho central.
A expressão traduzida como “examinais as Escrituras” também pode ser entendida como uma ordem para examiná-las. Em qualquer das leituras, o ponto principal permanece: o estudo bíblico não cumpre sua finalidade quando o leitor rejeita o Cristo anunciado pela própria Palavra. Jesus não diminui as Escrituras; confirma sua autoridade como testemunhas verdadeiras.
Depois da ressurreição, ele mostrou aos discípulos como Moisés, os Profetas e os Salmos apontavam para sua pessoa e sua obra (Lucas 24:27,44-47). Isso não significa que cada detalhe de cada narrativa seja um símbolo secreto de Jesus. Significa que a história bíblica possui uma unidade, desenvolvendo as promessas e os atos de Deus que culminam nele.
Portanto, estudar a Bíblia sem perder de vista Jesus exige respeitar o significado de cada passagem e compreender seu lugar no conjunto da revelação. A criação, a queda, a aliança, os sacrifícios e a esperança do reino ajudam a entender por que necessitamos de redenção e como Deus a realizou por meio de seu Filho.
O conhecimento precisa ser acompanhado de fé
A denúncia de João 5:40 alcança o centro do problema: “não quereis vir a mim para terdes vida”. Aqueles homens não estavam apenas diante de uma dificuldade intelectual. Havia resistência pessoal ao Salvador. Conheciam palavras que anunciavam a vida, mas não queriam recebê-la daquele que estava diante deles.
Vir a Cristo é confiar nele, abandonar a pretensão de salvar a si mesmo e acolher sua palavra com arrependimento e fé. A vida eterna não é recompensa por memória privilegiada, domínio de argumentos ou quantidade de livros lidos. É dom de Deus em Jesus Cristo, recebido pela fé, não conquistado por obras (Efésios 2:8-9).
Isso não torna o conhecimento dispensável. A fé cristã não se alimenta de ignorância, mas da verdade revelada. Timóteo conhecia desde a infância as sagradas letras, capazes de torná-lo sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus (2 Timóteo 3:15). O conhecimento é precioso quando serve à confiança obediente no Senhor.
Ao abrir a Bíblia, pergunte não apenas: “O que aprendi?”, mas também: “A que verdade preciso me submeter?”. Talvez a passagem confronte uma desculpa, exponha um pecado ou fortaleça uma promessa esquecida. A resposta adequada não é apenas registrar uma informação, mas receber com mansidão a Palavra e praticá-la (Tiago 1:21-22).
A busca por aprovação pode obscurecer a verdade
Em João 5:41-44, Jesus revela outra raiz daquela resistência: o desejo de receber glória uns dos outros. Ele não dependia do reconhecimento humano para validar sua missão. Seus opositores, porém, estavam tão envolvidos com a aprovação mútua que não buscavam a glória que vem do único Deus.
Quando Jesus afirma que eles não tinham em si o amor de Deus, expõe a distância entre aparência religiosa e devoção verdadeira (João 5:42). Um ambiente pode possuir grande atividade espiritual externa e, ainda assim, ser governado pela vaidade. O prestígio religioso não é uma medida segura de comunhão com o Senhor.
A disposição de receber alguém que viesse em seu próprio nome, enquanto rejeitavam aquele enviado pelo Pai, evidencia prioridades distorcidas (João 5:43). O coração orgulhoso frequentemente prefere uma mensagem que confirme sua importância a uma verdade que exija rendição. Por isso, o estudo bíblico também precisa examinar nossas motivações.
Podemos ler para vencer discussões, impressionar pessoas ou confirmar opiniões previamente escolhidas. O caminho saudável é outro: buscar a aprovação de Deus acima dos aplausos humanos. Como Paulo pergunta em Gálatas 1:10, a quem desejamos agradar? A leitura reverente começa quando estamos dispostos a ser corrigidos pela verdade que confessamos amar.
Moisés aponta para aquele que cumpre as promessas
Nos versículos 45 a 47, Jesus apresenta uma conclusão surpreendente: Moisés, em quem seus interlocutores depositavam esperança, seria seu acusador. Eles reivindicavam fidelidade ao grande servo de Deus, mas rejeitavam aquele sobre quem ele havia escrito. Sua confiança religiosa entrava em contradição com o conteúdo das Escrituras que afirmavam seguir.
Jesus não estabelece oposição entre uma mensagem supostamente errada de Moisés e uma nova mensagem verdadeira. Ele afirma continuidade: “se crêsseis em Moisés, também creríeis em mim” (João 5:46). A revelação anterior não precisava ser desprezada, mas compreendida à luz de seu cumprimento no Filho.
Deuteronômio 18:15 anuncia um profeta semelhante a Moisés, promessa aplicada a Jesus em Atos 3:22-23. Além disso, a Páscoa, os sacrifícios e o sacerdócio ajudam a compreender sua obra redentora. O Novo Testamento apresenta Cristo como nossa Páscoa e como o sacerdote cujo sacrifício é suficiente e definitivo (1 Coríntios 5:7; Hebreus 10:11-14).
Essa relação nos ensina a valorizar toda a Bíblia. Não devemos tratar o Antigo Testamento como uma coleção ultrapassada, nem ler o Novo como se não tivesse raízes na história das promessas divinas. O mesmo Deus fala em ambos, e sua fidelidade resplandece no cumprimento de sua palavra em Jesus.
Como estudar a Bíblia mantendo o olhar em Cristo
Comece com oração e humildade. Peça a Deus entendimento, disposição para obedecer e proteção contra a autossuficiência. A oração do salmista oferece uma direção preciosa: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas da tua lei” (Salmo 119:18). Dependemos do Espírito Santo, que nos conduz à verdade e glorifica o Filho (João 16:13-14).
Leia a passagem em seu contexto. Observe quem fala, a quem se dirige, qual problema está sendo tratado e como o argumento se desenvolve. Considere também o tipo de texto: poesia, narrativa, profecia e carta não comunicam da mesma maneira. Buscar Jesus nas Escrituras não autoriza ignorar aquilo que elas realmente dizem.
Depois, relacione a passagem ao conjunto da Bíblia. Pergunte o que ela revela sobre Deus, a condição humana, suas promessas e sua obra de salvação. Procure conexões demonstradas pelas próprias Escrituras, sem inventar sentidos ocultos. Recursos confiáveis e o ensino da igreja podem ajudar, mas devem permanecer subordinados à Palavra, como mostra o exemplo dos bereanos (Atos 17:11).
Por fim, responda com fé e obediência. Transforme o que leu em oração, confissão, gratidão e ações concretas. Uma leitura verdadeiramente cristocêntrica não termina em uma referência apressada a Jesus; conduz à dependência dele e a uma vida moldada por sua graça. O Senhor que salva também nos ensina a amar, perdoar e perseverar.
Continue seu estudo
A relação entre as Escrituras e Cristo também aparece no encontro de Jesus com os discípulos no caminho de Emaús. Para refletir sobre o efeito da Palavra na vida de quem a recebe, leia ainda o estudo do Salmo 19 sobre a restauração da alma.
Conclusão
João 5:39-47 nos ensina que conhecer as Escrituras e render-se ao Salvador nunca deveriam caminhar separados. Jesus confirma o testemunho da Palavra, denuncia a incredulidade, confronta a busca por reconhecimento e mostra que Moisés apontava para ele. Estudar a Bíblia corretamente exige atenção ao contexto, humildade diante de Deus e disposição para obedecer. Não desanime se ainda há muito a aprender. Aproxime-se de Cristo com suas limitações e continue ouvindo sua voz nas Escrituras. Sua esperança não está na perfeição do seu estudo, mas na suficiência daquele que morreu e ressuscitou por pecadores. Leia com reverência, ore com confiança e caminhe com perseverança.
Clamor de vitória: Avance na fé, povo de Deus! Cristo venceu: permaneçamos em sua Palavra, para a glória do Senhor!
Image by: Eismeaqui

